Igreja Matriz História


Por: Gilberto Furriel
A primeira ermida de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca foi erguida em data anterior à criação da própria paróquia, dada em 1717 por ato episcopal de D. Francisco de São Jerônimo, 3° Bispo do Rio de Janeiro. Localizava-se na beira do rio Aiuruoca, na Antiga Freguesia, local da primitiva povoação situado na região norte do município, hoje conhecido como Ponte de Zinco, estrada sentido Fazenda Quatro M. O primeiro pároco foi Padre Manoel Rabelo que ali exerceu seu cargo de 1718 a 1725, sendo a Irmandade da Conceição ereta em 1725, conforme Anuário Eclesiástico da Diocese da Campanha título Aiuruoca, de Monsenhor José do Patrocínio Lefort.
Durou pouco esta igreja, pois, em visita datada de 3 de novembro de 1749, o Padre Dr. Miguel de Carvalho Matos, visitador de D. Frei Manuel da Cruz, prescrevia "que se derrubassem os restos da Matriz velha e se fizesse uma outra"[1]. Ouve, no entanto, um intento da população de se mudar a Freguesia para um pouco mais a oeste, rumo ao arraial de Baependi, mas por força de dois mineradores ricos, a Freguesia foi transferida para um quilometro acima da antiga, ou seja, para o local onde hoje se situa a cidade de Aiuruoca, em terras doadas ao Patrimônio de Nossa Senhora da Conceição em 1742, por Domingos Teixeira de Morais.
Em declaração datada de 16 de outubro de 1754, Manoel Mendes de Carvalho, natural da Freguesia de Nossa Senhora do Trigeno, Concelho de Santa Cruz de Simaringa, Bispado do Porto, descreve que:
"Comprara uma sorte de terras a Domingos Teixeira de Morais, que aquelas terras compreendiam ambas as partes do Rio Aiuruoca, sem reservação alguma do outorgante, para se fazerem o Arraial e Matriz".[2]
Surgindo a questão do Patrimônio, ele Manuel Mendes de Carvalho fazia doação:
"Da paragem onde esta hoje o dito Arraial e Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca para território de uma Igreja, com obrigação, porém, que qualquer pessoa que fizesse casas da dita paragem as aforasse com alguma pensão de lucros para asseio e gastos da dita Senhora no seu culto, que doava a dita paragem, confrontando rio acima com as terras do defunto Capitão Mór Manoel Garcia de Oliveira e rio abaixo com Francisco Lopes Gamarra, segundo era desejo de Domingos Teixeira, para patrimônio da mesma Senhora. Que seus limites confrontam, pelo Aiuruoca da parte do nascente e da parte do poente com ribeirão que vai para detrás da Matriz desaguar no rio Aiuruoca, e de barra deste, correndo ribeirão acima até onde o dito achou um serviço medido pelo vendedor, e do tal serviço cortando direito por detrás onde esteve a Igreja Velha a cair no rio Aiuruoca em uma cata velha"[3]
O outro comprador das demais terras, Capitão Roque de Souza Magalhães, natural de Sá, Comarca dos Arcos de Valença do Minho, Arcebispado de Braga Portugal declarou que "não tinha dúvida em dar mais algumas terras para a largueza do Arraial e território da Matriz", o que fez estabelecendo como divisa:
"A parte feita por detrás da Igreja Velha a cair no rio Aiuruoca, rumo aos moinhos e para o Caminho Velho, subindo rumo direito o ribeirão que se separa para o campo, bem como a parte do mesmo ribeirão todas as serras que distam do córrego seco ou lacrimal que vem da parte do poente e do campo a cair no mesmo ribeirão fronteiro ao terreno das casas de Domingos Calixto, e desaguar no mesmo ribeirão".[4]
Assim, a segunda edificação da matriz de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca foi construída nas terras acima mencionadas, terras onde hoje se localiza a Praça Monsenhor Nágel, centro urbano, voltada para a região sul, em direção ao Pico do Papagaio. Já no ano de 1758, D. José Rei de Portugal, doa as alfaias para o provimento da nova Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca, conforme registrado no Almanaque Sul-Mineiro de 1874 titulo Ayuruoca.
Em 1822 passa por Aiuruoca o celebre naturalista francês August de Sant-Hilaire. Em sua chegada ocorrida em 5 de março deste mesmo ano, descreve sobre o Arraial de Aiuruoca e faz referências à simplicidade arquitetônica da Matriz, ao relatar que "(...)a Igreja Paroquial ergue-se na extremidade mais elevada desta rua, é pequena, sem sino, e nada oferece de notável" como se depreende do livro Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo, Titulo Aiuruoca.
Porém, a mais concisa das descrições referentes à segunda Igreja Matriz de Aiuruoca se depreende de uma visita pastoral que fez Dom Frei José da Santíssima Trindade, datada de 31 de julho de 1824. Segue abaixo, um trecho do documento sobre a referida visita, onde é possível obter detalhes importantes sobre o sistema construtivo e bens integrados da então Igreja Matriz.
"A Igreja Matriz é fabricada de taipa em uma baixa cercada de morros, e perto dela passa o rio Aiuruoca, e por isso tem pequeno Arraial, tem cinco altares dourados e pintados, menos um colateral que esta só em talha, mas estavam já as tintas prontas para concluir.
O retábulo do altar-mor é de madeira bem pintada e dourada. Tem outro altar em capela separada em que está uma boa imagem do Senhor dos Passos com muita decência, mas o forro da igreja acha-se em madeira e o campamento arruinado. Tem boa sacristia e bons caixões de ornamentos, dos quais está bastantemente provida e com muita limpeza e gravidade tanto nestas como nas mais alfaias para o sacrifício, vasos dos santos óleos e âmbula do sacrário. Tem cemitério por detrás da capela mor. Segundo uma informação do pároco em visitação, recebem na matriz o pasto espiritual 1.950 pessoas, e tem menores 324, que ao todo fazem 2.274"[5]
A respeito dos cinco altares acima mencionados, apenas o altar-mor não permanece nos dias atuais, sendo os demais, juntamente com o sino e o relógio, os únicos exemplares remanescentes da segunda Igreja Matriz, além das pedras e madeiras reaproveitas na futura reconstrução. O sino foi acrescido em 14 de Agosto de 1834 em comemoração à elevação do Arraial à Vila de Aiuruoca. Em documento datado de 4 de Junho de 1872, o Padre Dr. José Eduardo Honorato da Silveira solicitava à Câmara o envio de uma representação à Assembléia Provincial, requerendo uma cota de quatro contos para a construção das torres e o frontispício da Matriz, Não é sabido no entanto a época do inicio da construção das referidas torres, sabe-se porém, que concorreu também para a construção das torres o Tenente Antonio Esaú dos Santos, o mesmo doador do altar e da Imagem de São Sebastião, conforme consta em ata de seu sepultamento datada de 26 de outubro de 1893 existente no Arquivo da Casa da Cultura de Aiuruoca.
Em 1885, a Câmara Municipal doa o seu relógio juntamente com o sino, que foi acrescentado em uma das torres no mesmo ano. O Para-raio da igreja foi doado em 30 de maio 1899 por lei Municipal n° 45, existente até os dias atuais. No ano de 1900 verifica-se a demolição da escada da Capela do Santíssimo Sacramento, paralela a rua Cel. João Oswald Dinis Junqueira.
A última menção da segunda Igreja Matriz se depreende de uma ata de reunião dos procuradores da Matriz e Irmandades da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca, em 17 de Abril de 1902, sobre o exame feito pelo engenheiro alemão Wilhelm Brozenius, após detalhada e minuciosa vistoria no prédio, que aconselha a reconstrução de uma nova igreja alegando que seria muito mais alto o custo para a reforma da mesma.
"(...) O resultado do exame feito pelo Engenheiro Brozenius foi o seguinte: as obras projetadas custaram mais de 30 contos de réis; o corpo da matriz, completamente danificado, ameaça arruinar-se em tempo mais ou menos próximo; as torres exigem segurança em suas bases e serviços urgentes e que excedem muito o preço da construção de uma nova matriz em lugar incomparavelmente mais próprio do que a actual; além disto, a despesa da reconstrução da Capela Mor não compensa os sacrifícios exigidos".[6]
No mesmo mês foi enviado um requerimento a Câmara Municipal pelo Pároco da época, Padre Pedro Nolasco de Assis, pedindo licença para ocupar rua e parte do largo da matriz com material para a construção do novo templo. Obtendo despacho favorável, ainda no mês de abril, foi demolida a antiga Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca para dar lugar a atual, cujo inicio da construção se deu no mesmo ano, isto é, em 1902.
A terceira edificação da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca, a qual se conhece hoje, foi projetada pelo engenheiro alemão Wilhelm Brozenius. A nova matriz, rompendo com o estilo colonial, tornou-se referência arquitetônica a época. Todo material aproveitável da antiga Matriz como altares, madeiras, pedras, relógio e sinos foram reutilizados na edificação do início do século XX. Na construção foram empregados tijolos doados pelo Cel. João Oswaldo Diniz Junqueira, oriundos de sua própria olaria, ficando parcialmente pronta em 1905.
Em 1917, de acordo com relatório do Vigário José Ribeiro Castro, existente no Livro do Tombo A, folha 43 verso, no mês de dezembro houve a troca de todo o telhado e conclusão dos serviços externos. Em 1919, o Padre Antônio Fortunato Nágel, futuro Monsenhor Nágel, envia outro relatório registrado no mesmo Livro do Tombo, nas folhas 16 verso e 17 verso, a matriz ainda estava por concluir, faltando-lhe os serviços da sacristia, Capela do Santíssimo Sacramento, decoração interna e término da pintura do forro. No ano de 1921, o padre Nágel envia novamente um relatório a Sua Essência Dom João, Bispo da Diocese de Campanha, prestando-lhe contas das obras que efetuou na Igreja Matriz.[7]
Porém, em 1924, segundo outro relatório feito no Livro do Tombo B, folha 47, a Matriz inicia uma nova reforma, desta vez interna, com a troca do forro da Capela Mor. O padre Antônio Fortunato Nágel, neste mesmo ano informa que já tinha adquirido o material necessário para a continuação da reforma geral em principio de 1925.
Assim, em 1925, sob o patrocínio do Cel. José André Junqueira, José Orlens de Arantes e o próprio pároco, foram executados os seguintes trabalhos: substituição dos forros retos por forro arqueados, tanto da Capela Mor como de todo corpo da igreja; rebaixamento do forro do coro, sendo-lhe acrescidos três elegantes arcos em sua fachada; substituição do Altar Mor - confeccionado por Gabriel Thobias da Silva Bemfica, que aproveitou parte do antigo altar; e pintura a óleo total dos forros da igreja, conforme o Livro Tombo B de 1925 pagina 49. Ainda em 1925 no mesmo livro a pagina 50, a Igreja recebe nova iluminação sendo colocados:
"Dois belos lustres, um na capela mor e outro no corpo da igreja, iluminação suficiente no coro, em cuja frente, acima da segunda arcada, entre três lâmpadas, acha-se um grande e rico quadro de São José, duas lâmpadas em cada púlpito e um no alto do arco principal, duas lâmpadas em cada nicho do altar mor, uma no centro, ao alto e uma em cada coluna lateral do mesmo, lâmpadas velas para a camarinha e lâmpadas de serie para o altar mor, e finamente, o letreiro Nossa Senhora da Conceição, Rogai por Nós". (Livro do Tombo B ano 1925, folhas 49 verso).
As lâmpadas em série e o letreiro foram confeccionados e instalados por conta dos senhores Dr. Alberto C. Barreto Almeida e Major José Villela Nunes.
No dia 21 de fevereiro de 1936, o pároco Antônio Fortunato Nágel celebra com o empreiteiro Agostinho da Rocha, contrato para a nova reforma da Igreja Matriz, sendo as obras iniciadas na em março do corrente ano. Foi a obra orçada em 16:260$000 (dezesseis contos e duzentos e sessenta mil reis) pagos em quatro prestações de três em três meses, sendo de 4:000$000 (quatro contos de réis) cada uma e a ultima de 4:269:000 ( quatro contos e duzentos e sessenta nove mil réis). Em 31 de janeiro de 1937, o empreiteiro Agostino da Rocha assina um recibo de contrato constando os gastos dos materiais para a obra da Matriz.
Em 10 de outubro de 1952, ainda sob o auspício do já então Monsenhor Antônio Fortunato Nágel, inicia-se uma reforma completa e radical na Igreja Matriz que modificou toda sua estrutura interna. Segundo os relatos contidos no Livro do Tombo F ano 1954, página 134, a velha matriz foi transformada "numa igreja moderna, ampla, bonita e cômoda para o exercício da piedade cristã".
Sob o comando do engenheiro Alfredo Shimidt, da cidade de Caxambu, a nave da igreja matriz sofreu grande modificação, sendo ampliada totalmente, acrescendo-lhe mais vinte metros, ficando com o total de 40 metros de extensão. Ocorreu a troca geral dos pisos e do altar mor de madeira por outro de mármore. Os altares de madeira laterais foram transladados para as laterais da igreja, sendo também colocados dois novos altares de mármores colaterais da matriz. O forro, de madeira cedeu lugar a outro de estuque ricamente ornado com duas figuras: O Cálice e A Cruz. A pintura interna, originalmente branca, foi substituída por argamassa aplicada de mica e as janelas substituídas por basculantes. Ao fundo da Igreja, anexo à nave, foram construídas novas dependências com dois pisos, o inferior, para servir de sacristia e espaço para guarda de material litúrgico, o superior, de capela do Santíssimo Sacramento. O coro, totalmente remodelado, recebeu parapeito abaulado e piso em vermelhão. A parte elétrica fora toda substituída, sendo-lhe acrescentada luminárias em todas as colunas e três lustres na nave central. Na torre, internamente houve a substituição da escada de acesso e na parte externa, foram colocadas as janelas fechando o campanário e instalando a imagem de bronze de Nossa Senhora da Conceição, doada pelo Deputado Odilon Resende, ex- prefeito de Três Corações.
No corpo externo, a matriz recebeu novo reboco e pintura geral nas cores ocre e amarelo com listras de brancas. No adro, troca dos pisos, colocação de mosaicos na fachada, pintura da porta principal nas cores vermelho e dourado, acréscimo de dois postes de iluminação e troca da escada principal de pedra por granizo vermelho.
As obras da matriz foram concluídas em 1954, sendo sagrada com toda pompa em 6 de junho do mesmo ano, como poderemos observar no registro de sua sagração lavrada no Livro do Tombo F, folha 133 verso:
"(...) foi solenemente sagrada neste memorável dia 6 de junho de 1954, por sua Sua Excelência Reverendíssima Dom Inocêncio Engelk, sendo acompanhado, nas cerimônias por 29 Sacerdotes, desta e de outras Dioceses, que nos honraram com sua presença, nesta grandiosa oportunidade. Estiveram presentes, também, os distintos amigos, Deputados Odilon Resende, Dr. Daniel de Carvalho, Dr. Olavo Pinto e Dr. José Cabral e uma caravana da Escola da Paróquia de São João Del Rei, chefiada pelo Revmo. Cônego Almir e seu digno Coadjutor. A todos, o Pároco, reconhecido, deixa, nestas páginas, o testemunho de sua gratidão (...)"

"(...) quero deixar bem patente, neste histórico, a boa vontade que encontrei, no povo, para levar de vencida o meu ideal da transformação da nossa antiquada igreja, cujo estado de pobreza vinha depondo muito contra nosso foros de um povo católico. Tanto nos vários movimentos feitos na cidade, como nas fazendas, sempre se via os espírito cooperador reinante, quer nos que promoviam leilões, em suas residências, que no que afluíam ao local, para essistir à missa e levar o seu auxilio (...)"

Em notícia publicada no "Jornal Voz Diocesana", órgão oficial do bispado, de 20 de julho de 1954, a nova matriz de Aiuruoca fora construída no mesmo local com o aproveitamento das paredes e de outras partes e que a nova matriz poderia se colocar entre as mais sólidas e artísticas do Bispado, cuja restauração custou bem mais de um milhão de cruzeiros.[8]
Em 1993, a Igreja Matriz passa pela última reforma. As obras duraram um ano, concentrada especialmente na parte externa com a troca total do reboco e nova pintura, desta vez, nas cores cinza e amarelo, mantendo porém, as já tradicionais listras brancas. O adro, contudo sofreu grande modificação com a substituição dos ladrilhos, substituição da escada de granito vermelho por piso hidráulico, substituição dos mosaicos da fachada frontal por pedras e, por fim, acréscimo de floreiras.
Na parte interna, houve a retirada do forro de estuque substituído por forro de PVC. Com exceção da porta principal, houve a substituição das portas de madeira por portas de ferro que receberam pintura branca e amarela.
Na sacristia e no mausoléu do Monsenhor Nágel, foram colocadas novas portas de madeira, confeccionas na marcenaria do senhor Hilário Arantes, da cidade de Cruzília. Os vidros da fachada principal foram substituídos por vidros coloridos. No frontispício do altar mor, foram acrescentados três quadros de azulejo de Nossa Senhora da Conceição ladeada por dois anjos.
Em 2008, os ladrilhos hidráulicos da escada principal foram substituídos por pedra de São Tomé e colocação de novos postes de iluminação de ferro fundido a gosto colonial.
Hoje, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, como outrora, tem papel significativo na preservação da identidade cultural e religiosa dos aiuruocanos, constituindo-se em seu maior palco, nele, são encenados e celebrados os principais atos litúrgicos, paraliturgicos e sociais da vida religiosa aiuruocana, como a bicentenária Semana Santa, as seculares procissões, as tradicionais coroações, as cerimônias fúnebres, os batizados e casamentos. Como fomentadora da cultura, nela são realizados eventos culturais que envolvem toda a comunidade como apresentação de teatro, apresentação de corais, apresentação de filmes e de musicais.

                                         Vista de frente
                                                        Reforma

                                                             Antigo Teto da Igreja    
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca